Papo de Cúpula
Moema de Rezende Vergara | historiadora e pesquisadora do MAST
Moema de Rezende Vergara é historiadora e pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins. Atualmente, coordena os trabalhos do projeto de pesquisas “Território, Ciência e Nação” que se dedica a entender a relação entre a formação territorial brasileira e a ciência. O projeto, criado em 2008, foi responsável por diversas ações de divulgação da História da Ciência, incluindo seis edições do “Curso de Extensão para Professores” do MAST, cuja sétima jornada começou no início deste mês.
Em entrevista ao Portal InforMAST, Moema conta que chegou ao Museu de Astronomia em 1998, quando começou a trabalhar como bolsista PCI. Foi nessa época que descobriu o que viria a ser seu objeto de pesquisa para o doutorado que completaria em 2003: a divulgação científica no final do século XIX. Em 2005 foi efetivada, através de um concurso, como Pesquisadora Titular do MAST.
Pouco tempo depois, a historiadora começou a desenvolver as pesquisas que viriam a fundamentar o projeto “Território, Ciência e Nação”. “Eu vim de uma geração muito interessada com a questão do pensamento social brasileiro”, explica Moema. “Dentro do pensamento social brasileiro, a gente tem o conceito de raça como muito importante para explicar o que é o Brasil e o que são os brasileiros... as relações raciais, a questão da mestiçagem. Então você tem uma produção enorme, ao longo do século XX, sobre essa questão.”
O projeto “Território, Ciência e Nação” foi pensado para abordar a questão do pensamento social do país por outra frente. “Território, nesse grupo de pesquisas, é uma palavra chave pra a gente entender o Brasil. O ‘Brasil’ vem antes do território e, à medida que a gente vai descobrindo esse território, a gente vai formando nossa identidade.”
Para o grupo de pesquisas que se formou com o projeto, o acervo de documentos e instrumentos científicos do Museu, em particular o Fundo Luiz Cruls, foi fundamental para entender essa relação. “Pesquisando no Fundo, descubro a expedição para o Planalto Central, que é uma coisa fascinante. Em 2006 eu já tinha publicado um artigo que tem a ver com essa questão do território e Astronomia, que é a delimitação da capital federal - essa expedição [que determinou os limites da região central brasileira] é perfeita para falar disso”.
A historiadora ressalta ainda o importante papel que esse tipo de expedição desempenhou, para além da demarcação, no reconhecimento do território. “Tinha a missão que era delimitar, mas também conhecer esse território. E aí montaram uma equipe com astrônomo, higienista, botânico, geólogo, médico, para conhecer aquela região. Isso é recorrente, não era só naquele momento, no império era assim, eles mandavam [e diziam] ‘mas traga notícia, conheça.’”
As pesquisas do projeto foram delimitadas entre os anos 1870 e 1930. “É um recorte meio clássico, 1930 por conta da revolução, então eu quero estudar o que houve antes. E 1870 é um Brasil Império, mas depois da guerra do Paraguai, tem muita crise política, mas é um momento de certa estabilidade”.
O período foi marcado pela influência de grandes literatos brasileiros que também tentavam entender o que eram o Brasil e os brasileiros. “É dessa época uma geração com Machado de Assis, Silvio Romero, José Veríssimo, Araripe Júnior. Então você tinha, na literatura, os intérpretes do Brasil. Eles liam livros naturalistas. José de Alencar, por exemplo, nos romances dele, quando ele fala do sabiá, era o sabiá mesmo, ele descreve com nome científico; a palmeira não é qualquer palmeira. Ler os romances do romantismo e do naturalismo era uma forma de conhecer.”, afirma Moema. “O que eles estavam pedindo [tanto literatos quanto cientistas] era para conhecer o território – a gente tem um território que é incrível, é continental e a gente não conhece. A necessidade de inventariar essa natureza...”
“Tinha essa coisa de ‘vamos fazer o Brasil, vamos fazer um novo país’. Diferente de Portugal – o que é nosso. Tanto na ciência quanto na literatura.”, conta a pesquisadora, “a gente não conseguiu achar uma equação que resolvesse essa questão de ser brasileiro, por isso eu acho temos tanto problema na questão da cidadania, no uso dos recursos públicos, como a gente lida com o espaço público, como a gente se auto-deprecia, como a gente não tem orgulho da própria história.”
“E todo esse trabalho que vem desde o século XIX até agora tem um efeito. A gente ainda fica deslumbrado quando vê o Brasil, coisas do Brasil, a nossa diversidade, coisas que a gente nem sabia que estava aqui no território. Eu quero mostrar como isso faz parte da nossa identidade.”
A historiadora reitera também seu compromisso com a divulgação do que é descoberto, com a intenção de ajudar a formar a ainda precária imagem do que é o cientista brasileiro, perante a sociedade. “Se você perguntar na rua o nome de um cientista brasileiro, dificilmente alguém vai saber responder. Então eu acho que a gente tem muito que fazer nesse sentido. A intenção é tentar mostrar como foi aquela história, porque você tinha uma produção científica. Não é só o país das cópias.”
O projeto foi responsável pela criação do “Curso de Extensão para Professores”, que entrou, neste mês, em sua sétima edição. “A idéia desse curso era botar pesquisadores falando com professores. Porque você tem um ‘gap’ muito grande entre o que o pesquisador descobre até chegar ao livro didático, isso vai levar uns 30 anos ou mais. Então, por que não a gente fazer essas pontes logo, quem sabe pode demorar menos”, explica Moema. “O professor tem esse papel na sociedade de repassar. Então, indiretamente, eu estou buscando meios de atingir o maior número de pessoas possível com esse projeto, e é super bem-sucedido.”